Estamos em 2005. A Televisão Tcheca lança uma votação nacional: Největší Čech, o Maior Tcheco. Os votos chegam por telefone, SMS e internet, e um nome não para de aparecer: Jára Cimrman, inventor do iogurte, quase descobridor do Polo Norte, dramaturgo, filósofo e - o mais importante - um personagem que não existe. Foi criado em 1966 por Zdeněk Svěrák e Ladislav Smoljak para um programa de rádio de Praga.
Depois de consultar a BBC, dona do formato, a organização decide que um herói fictício não pode concorrer. Cimrman é eliminado e a sua contagem de votos nunca é divulgada; é bem possível que estivesse à frente. O vencedor oficial é Carlos IV, rei e imperador do século XIV, à frente de Masaryk e Havel. A nação encolhe os ombros: „No jo, tak Karel Čtvrtý. Ale Cimrman by to zvládl líp.“ (Tá bom, que seja Carlos IV. Mas o Cimrman teria feito melhor.)
Talvez seja a coisa mais boêmia que já aconteceu. Não só porque Cimrman é uma instituição de Praga (o teatro dele fica em Žižkov, o mais pragense dos bairros de Praga), mas porque a piada inteira funciona numa frequência profundamente obecná čeština: seca, autodepreciativa, intelectual na superfície mas anárquica por baixo.
Mas atravesse as colinas da Vysočina rumo à Morávia e o humor muda de tom. Fica mais caloroso, mais musical, enraizado nas adegas e não nas cervejarias, nas histórias contadas na aldeia e não no teatro do absurdo. Os morávios não precisam de um gênio inventado: têm o contador de histórias da adega, o vizinho capaz de prender a sala meia hora com um causo em dialeto carregado, até todo mundo chorar de rir.
Esta lição mostra como boêmios e morávios riem, e o que eles revelam sem querer sobre si mesmos quando riem.
| Bohemian Czech (Obecná) | Moravian Czech | Meaning |
|---|---|---|
tramvaj / elektrika /tramvaj/ /ɛlɛktrɪka/A palavra padrão, usada em toda a Boêmia; a fala antiga de Praga também diz elektrika. Praga não tem apelido carinhoso para seus bondes: o diminutivo tramvajka é de Ostrava, não de Praga. | šalina /ʃalɪna/A palavra de Brno, provavelmente do alemão «elektrische Linie» (linha elétrica). Usá-la fora de Brno denuncia na hora que você é um Brňák. Na verdade, a Morávia tem duas palavras para bonde: šalina em Brno e tramvajka em Ostrava, e Praga nenhuma. | bonde |
brambory /brambori/A palavra padrão e a de todos os dias em toda a Boêmia. Vem de „Braniborsko“ (Brandemburgo), de onde se julgava que a planta tinha vindo. | zemáky / erteple /zɛmaːkɪ/ /ɛrtɛplɛ/„Zemáky“ (maçãs-da-terra, como o eslovaco „zemiaky“) é a palavra do leste da Morávia; „erteple“, do alemão austríaco „Erdäpfel“, se ouve em outras partes da Morávia. Peça zemáky em Praga e vai receber primeiro um olhar intrigado, depois batatas. | batatas |
hadry /ɦadrɪ/Gíria boêmia para roupa. Literalmente “trapos”: autodepreciação até com o guarda-roupa. „Mám nový hadry“ = “comprei roupa nova”. | šaty / gatě /ʃatɪ/ /ɡacɛ/«Šaty» no sentido de roupa em geral é tcheco padrão antigo («šaty dělají člověka», a roupa faz o homem) e continua mais vivo na Morávia; na fala diária da Boêmia costuma querer dizer vestido. «Gatě» é do leste da Morávia: em Slovácko, as calças do traje típico masculino e, no coloquial, calças em geral. Para um boêmio pode soar eslovaco. | roupa / roupas |
dobrý / hustý /dobriː/ /ɦustiː/O elogio boêmio à comida é tipicamente contido: „dobrý“ (bom) já é um baita elogio. „Hustý“ (denso, intenso) é gíria jovem de Praga para “demais”: aplicado à comida, quer dizer bom de cair o queixo. | šmakózní / totálně dobré /ʃmakoːzɲiː/ /totaːlɲɛ dobrɛː/Nenhuma das duas é regional. «Šmakózní» (uma criação brincalhona a partir do alemão schmecken, ter gosto) é coloquial no país inteiro, Praga incluída, e «totálně dobré» é simplesmente «bom demais». Elogiar comida não revela de onde alguém é. | que delícia! / gostoso |
trochu / trošku /troxʊ/ /troʃkʊ/O sistema padrão de diminutivos. Nada de inesperado: os boêmios mantêm as coisas simples. | kapku / malinko /kapkʊ/ /malɪŋko/As duas são coloquiais em toda parte: «kapku» (uma gota) e «malinko» (um tiquinho) se ouvem em Praga tanto quanto em Brno. Dizem que os morávios gostam mais de diminutivos, mas é uma impressão, não uma marca confiável. | um pouco / um pouquinho |
koukat / čumět /kou̯kat/ /t͡ʃumɲɛt/„Koukat“ é o verbo boêmio geral para olhar. „Čumět“ (encarar, ficar de olho arregalado) é mais grosseiro: „Nečuměj!“ (Para de encarar!) é atitude de Praga em estado puro. | kukat / kúkat /kukat/ /kuːkat/A forma morávia conserva a vogal antiga: o tcheco antigo „kúkati“ virou „koukat“ na Boêmia (a mesma mudança ú→ou de múka→mouka), mas ficou „kúkat“ ou „kukat“ na Morávia. „Kukni!“ (Olha!) é morávio dos pés à cabeça. | olhar / assistir |
kluk / chlápek / frajer /klʊk/ /xlaːpɛk/ /frajɛr/„Kluk“ é neutro, „chlápek“ sugere um sujeito durão, „frajer“ (do alemão „Freier“) é um exibido ou um cara descolado, conforme o contexto, e muito de Praga. | ogar / synek /oɡar/ /sɪnɛk/„Ogar“ (vocativo „ogare!“) é o rapaz do leste da Morávia: da Valáquia Morávia (Valašsko) e dos dialetos laquianos em torno de Ostrava. „Synek“ (filhinho) é o padrão caloroso morávio. Um „frajer“ de Praga quer impressionar alguém; um „synek“ morávio simplesmente existe. | garoto / rapaz / cara |
Para entender o humor tcheco, é preciso entender uma linhagem que vai de uma cervejaria de Praga a outra.
Tudo começa com Jaroslav Hašek (1883-1923), criador do Bom Soldado Švejk: um homem tão agressivamente educado, tão entusiasticamente obediente, que fica impossível saber se ele é um idiota ou um sabotador genial. O humor de Švejk é obecná čeština pura: seus monólogos passeiam por bares e quartéis de Praga numa voz inconfundivelmente boêmia e operária. O próprio Hašek foi um lendário boêmio de Praga, nos dois sentidos da palavra, que chegou a fundar o Partido do Progresso Moderado nos Limites da Lei (era uma piada de bar que saiu do controle).
Depois vem Bohumil Hrabal (1914-1997), que aperfeiçoou o pábitelství: a arte da contação de histórias sem pausa, em fluxo de consciência, feita por gente comum nos bares. Os romances dele parecem uma conversa entreouvida do filósofo de balcão mais extraordinário de Praga. De novo: obecná čeština, cenário de bar, uma superfície comum escondendo uma profundidade anárquica.
E então: Cimrman. Criado em 1966 por Zdeněk Svěrák e Ladislav Smoljak, Jára Cimrman é um polímata tcheco fictício que supostamente inventou tudo primeiro, mas nunca levou o crédito. Toda peça de Cimrman segue o mesmo formato: um seminário pseudoacadêmico (a palestra “cimrmanológica”, apresentada com seriedade absoluta, sem um sorriso) seguido de uma peça em um ato “de” Cimrman, recém-descoberta. O humor funciona em várias camadas ao mesmo tempo: é paródia da pretensão acadêmica, da mitologia nacional tcheca, das convenções do teatro e da própria língua.
O teatro de Žižkov onde essas peças são encenadas é há décadas o mais popular da República Tcheca. É mais difícil conseguir ingresso do que para a ópera. A plateia, esmagadoramente boêmia e esmagadoramente pragense, ri de piadas que dependem de trocadilhos específicos da obecná čeština, de duplos sentidos da gíria de Praga e da tradição tcheca de nunca levar nada muito a sério, sobretudo a si mesmo.
Enquanto isso, do outro lado da Vysočina, a Morávia desenvolveu uma tradição de humor paralela, mas fundamentalmente diferente. Onde o humor de Praga é urbano, cerebral e seco, o humor morávio é rural, físico e caloroso. Sua casa não é o teatro nem a hospoda (cervejaria), mas o sklípek, a adega. Sua forma clássica é simplesmente a história contada em voz alta (os morávios dizem rozprávět, falar, contar): alguém toma a palavra e, com um causo longo e sinuoso em dialeto carregado, vai até um desfecho que só funciona para quem ouve o sotaque local.
O humor de Haná (Morávia central) gira em torno do estereótipo do Hanák: o lavrador de fala lenta e gestos pensados, que é ou profundamente sábio ou profundamente tapado, e nunca dá para saber qual dos dois. O humor do Slovácko (sudeste da Morávia) é mais musical: canções folclóricas com letras devastadoramente engraçadas sobre namoros fracassados e trapalhadas de bêbado nas festas da aldeia.
A diferença principal? O humor boêmio ri do sistema. O humor morávio ri de si mesmo.
| Bohemian Czech (Obecná) | Moravian Czech | Meaning |
|---|---|---|
ty vole /tɪ volɛ/A muleta universal. Pode querer dizer qualquer coisa, de «nossa» a «sério?» ou uma vírgula, e um adolescente de Praga monta frases inteiras com ela. Os morávios ouvem a versão de Praga como rápida e chapada; os pragenses, por sua vez, são parodiados por arrastar o «vóle». | ty vole /tɪ ˈvolɛ/As mesmas palavras em toda a Morávia. Muitos tchecos ouvem como mais melódico o jeito de dizer do leste da Morávia, mas é uma impressão. A única diferença regional documentável está nos dialetos laquianos de Ostrava: o acento cai na penúltima sílaba do grupo de palavras, então fica ty VO-le, com todas as vogais breves. | “cara / mano” (palavra de apoio universal) |
Pražák / Pražačka /praʒaːk/ /praʒat͡ʃka/Os pragenses usam exatamente a mesma palavra para si, e em casa ela é neutra, até orgulhosa: „Jsem rodilej Pražák“ (Sou pragense de gema). Só muda de cor quando atravessa a Vysočina. | Pražák /praʒaːk/Quando um morávio diz „Pražák“, a palavra carrega um mundo: esnobe, apressado, acha que tudo fora de Praga é roça, provavelmente nem sabe que existe vinho na Morávia. Não chega a ser um insulto: está mais para um diagnóstico. | uma pessoa de Praga |
Hanák /ɦanaːk/O estereótipo boêmio do morávio: fala devagar, pensa devagar, ama as suas terras, tem uma sabedoria popular profunda ou só está profundamente no vinho. Os humoristas de Praga imitam o Hanák como os do Sudeste imitam o sotaque caipira: com carinho, mas de cima para baixo. | Hanák /ɦanaːk/Mas os Hanáci usam o termo sobre si mesmos com orgulho! O autoestereótipo do Hanák: “Sou lento porque penso bem nas coisas. Você é rápido porque não pensou em nada.” É a resposta morávia original. | o morávio estereotipado da região de Haná |
kecat / blábolit /kɛt͡sat/ /blaːbolɪt/«Kecat» (tagarelar, falar bobagem) é coloquial no país inteiro, Brno incluída: depreciativo, insinua que o outro está falando besteira. «Nekecej!» = «Para de falar besteira!» | rozprávět / povídat /rospraːvjɛt/ /poviːdat/„Rozprávět“ (falar, contar) soa livresco na Boêmia, mas é fala do dia a dia no leste da Morávia, como o eslovaco „rozprávať“ ali ao lado. É conversa calorosa, sem pressa. Onde Praga diz “deixa de conversa fiada”, a Morávia diz “conta mais”. | bater papo / fofocar / falar besteira |
pařit / vyrazit /parʒɪt/ /vɪrazɪt/„Pařit“ (literalmente cozinhar no vapor; farrear pesado) é intenso: sugere balada, madrugada, possível arrependimento. „Vyrazit“ (sair, dar um rolê) é mais tranquilo. O vocabulário da noite de Praga é movido a velocidade. | hodovat / jít na hody /ɦodovat/ /jiːt na ɦodɪ/„Hodovat“ (banquetear-se) diz tudo: a diversão morávia gira em torno de comida e vinho, não de baladas. „Jít na hody“ - ir à festa da igreja da aldeia (ver lição 8) - é o ponto alto do ano morávio. Ritmo mais lento, mais cantoria, nenhum arrependimento (fora a ressaca). | se divertir / cair na farra |
kravina / pitomost /kravɪna/ /pɪtomost/„Kravina“ (literalmente “coisa de vaca”) é o desdém de todo o tcheco, mas Praga o usa com um veneno especial. „Pitomost“ (estupidez) é mais duro. Os boêmios expressam ceticismo de forma agressiva. | hlúpost / blbina /ɦluːpost/ /blbɪna/O leste da Morávia conserva a vogal longa antiga: „hlúpost“ e „hlúpý“ onde a Boêmia e a norma dizem „hloupost“, „hloupý“ (a mesma divisão ú/ou de múka/mouka). „Blbina“ é suave, quase brincalhão. O grosseiro „chujovina“ que se pode ouvir não é regional: é gíria vulgar em todo o país. | bobagem / besteira |
O humor intelectual de Praga tem uma casa institucional clara. O Divadlo Járy Cimrmana, em Žižkov, é o topo, mas há também o Divadlo Sklep (literalmente “Teatro Porão”, mas um porão de Praga, não uma adega morávia), com sua comédia de esquetes surrealista, e toda a tradição dos filmes de Svěrák e Smoljak, como Marečku, podejte mi pero! (1976), uma comédia sobre uma escola noturna para trabalhadores, em que o tcheco padrão livresco e a obecná čeština do dia a dia vivem se chocando. São artefatos de Praga: as piadas funcionam porque brincam com o registro específico do tcheco da Boêmia.
Depois há o fenômeno do humor de Brno, coisa muito própria da Morávia urbana. Brno cultivou uma identidade gloriosamente autoirônica: „Brno je Brno“ (Brno é Brno, ou seja: não espere Praga). Os moradores de Brno brincam com verdadeiro carinho com os seus bondes, os seus conjuntos habitacionais brutalistas e o apelido Šalingrad. É um sabor diferente tanto do humor intelectual de Praga como do humor de aldeia morávio: irônico, urbano e profundamente local.
O humor de aldeia morávio vive no masopust (o Carnaval, chamado fašank em boa parte da Morávia), uma festa antes da Quaresma em que os aldeões vestem fantasias extravagantes e zombam dos acontecimentos locais. As canções do verbuňk (dança masculina tradicional) trazem muitas vezes versos afiados e espirituosos sobre a vida na aldeia. E a história contada continua viva em lugares como o Slovácko, onde um bom contador numa adega tece um causo num dialeto tão cerrado que nem os de Brno conseguem sempre acompanhar.
As duas tradições lidam até com a autodepreciação nacional de jeitos diferentes. A autodepreciação boêmia é intelectual: “Inventamos a votação do Maior Tcheco e o nosso maior tcheco era fictício: que coisa mais tcheca.” A morávia é terra a terra: “Fazemos o melhor vinho do país e ninguém em Praga sabe que ele existe; melhor, sobra mais para nós.”
Quando os humoristas tchecos atravessam a divisão, isso diz muito. Bolek Polívka, nascido em 1949 em Vizovice, na Valáquia Morávia, tornou-se um dos palhaços e atores mais queridos do país e em 1993 abriu seu próprio teatro em Brno. Em 1997, dois entusiastas de Valašsko fundaram o brincalhão Valašské království (Reino de Valašsko) e pediram a Polívka, que vivia fazendo piada com Valašsko em seu programa de TV Manéž Bolka Polívky, que fosse o primeiro rei. Seu humor é caloroso, físico e se apoia no arquétipo morávio do simplório esperto: o avesso da erudição impassível de Cimrman. Que os dois funcionem tão bem mostra a profundidade da cultura cômica tcheca.
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